4 de fevereiro de 2017

História de Pescador ( A pirarara e o potrinho )






Pescaria é coisa muito séria, um dos esportes que mais exigem do atleta, pois um pescador, para alcançar o status de milagreiro, deve reunir uma longa série de atributos que nenhum outro esportista tem.

O bom pescador deve possuir braços fortes, corpo viril, mente sã, paciência de mestres mestre em artes marciais, em meditação, em navegação e também, como nós, mestres cervejeiros, alambiqueiros, churrasqueiros e da ilusão (para não falar mentirosos).•.

Enfim, há pouco tempo, eu e alguns amigos, grandes mestres, nos reunimos para uma pescaria. Alguns foram para exercer a arte maior da pesca, outros com a excelência da cerveja e do churrasco, e um, muito disposto na maestria da ilusão, um contador de “causos” de mérito, com mérito e não demérito.



As fábulas eram das boas, mentirinhas saudáveis, daquelas que unem ainda mais as pessoas, não estragam a amizade e a família, saudável, de caçador e jogador de truco. Assim, depois de pescarmos uma quantidade grande de peixes – suficiente para deixar o lago, resolvemos descansar e encostamos o umbigo na churrasqueira para beliscar uma costela e contar uns “causos” de pescaria e pescador. Falamos da imensa sucuri que comeu um dentista no Mato Grosso; do tucunaré de 15 kg, que arrastou o bote do mesmo dentista (ainda bem que o mentiroso já foi comido); de pescaria de pirarucu de 300 kg; de jacaré de 2m enrolado na rede; e, para finalizar, o que mais nos espantou foi à história da pirarara (bagrão da bacia amazônica) soltada por um dos compadres:•.

Ele começou falando das belezas da região onde morava e dos rios de terras vizinhas do Maranhão, onde por muito tempo pescou o bagrão. Na época, o segredo da fisgada era a isca, porém, contando, ninguém vai acreditar no cardápio do incauto peixão. Segundo ele, não era minhoca, mandioca, massa, filé de peixe, mignon ou macarrão. O compadre jurou que no lugar só se pesca pirarara grande com “potranquinha”! Isso mesmo, de tão voraz e bocudo que o peixe é, por vezes, foi fisgado comendo filhote de égua; “fi duma égua”?!



Rimos muito, inventamos lorotas, trocamos o potrinho por filhote de jegue, porém o rapaz insistia que era verdade, e na região todo mundo sabe que isso ocorre. Afirmava que o peixe é carnívoro e, se bobear, engole até gente. Fim da pescaria. Cada um para sua casa, porém, na cama, não conseguia esquecer a receita, e a dúvida permaneceu em minha cabeça, já que sabia que no pesqueiro existem várias espécies da tal pirarara. Como mestre pescador, eu não poderia aceitar a questão e, acordando cedinho no outro dia, voltei ao pesqueiro para tirar os fatos a limpo. Ao chegar ao local, pedi, sem titubear, três potranquinhas, para fisgar o peixe de 30 kg.•.

Não vou dizer que deu certo, pois falhei em um detalhe: esqueci de reforçar a linha do meu equipamento, já que até o meio- dia só havia fisgado e conseguido tirar da lagoa uma pirarara pequena, enquanto as outras duas iscas foram embora com anzol e tudo, pois a linha não aguentou. Não é que pega mesmo?!

Nenhum comentário:

Postar um comentário